Um psicólogo brasileiro pode me atender se eu moro no exterior?
Sim. O atendimento psicológico mediado por tecnologia é regulamentado pelo Conselho Federal de Psicologia nas Resoluções nº 11/2018 e nº 04/2020, que autorizam expressamente o atendimento a pessoas que estejam fora do território nacional. Nesses casos, a relação terapêutica é regida pela legislação brasileira, o que é formalizado no contrato terapêutico no início do processo. O psicólogo precisa estar regularmente inscrito no Conselho Regional de Psicologia e cadastrado na plataforma e-Psi do CFP.
Por que fazer terapia em português se eu já falo o idioma do país onde moro?
Porque falar bem um idioma e sentir nele são coisas diferentes. A memória afetiva da infância, as brigas de família, as palavras que doeram e as que consolaram foram todas registradas em português. Ao fazer terapia em outra língua, você acrescenta uma etapa de tradução entre o que sente e o que diz — e essa etapa filtra intensidade. É comum a pessoa perceber que consegue explicar a dor no idioma novo, mas só consegue chorar no antigo. A terapia em português elimina esse intermediário.
Como funcionam os horários com a diferença de fuso?
Atendemos de segunda a sexta, das 08h às 20h no horário de Brasília (UTC−3). Para Portugal, Reino Unido e Irlanda, as manhãs de Brasília correspondem à tarde local. Para a Europa continental, o início da manhã daqui cai no meio da tarde de lá. Para a costa leste dos Estados Unidos e Canadá, a diferença é de apenas uma a duas horas. Para a costa oeste, as tardes de Brasília correspondem à manhã local. Para Japão e Austrália, usamos as primeiras ou as últimas janelas do dia. O horário é definido no agendamento e mantido fixo ao longo do processo.
O que é luto migratório?
É o processo de elaboração das perdas que a mudança de país envolve, mesmo quando a mudança foi desejada e deu certo. Não se perde apenas o convívio com pessoas: perde-se a língua ambiente, a paisagem, a comida, o repertório cultural compartilhado e, sobretudo, a condição de ser compreendido sem esforço. Costuma aparecer de forma atrasada, meses ou anos depois da chegada, quando a fase prática da adaptação termina e sobra espaço para sentir. Não é arrependimento nem fracasso — é uma reação previsível a uma perda real.
Por que sinto que não posso reclamar da vida fora?
Porque quem ficou no Brasil costuma enxergar a sua mudança como uma conquista, e às vezes como um privilégio. Isso cria uma armadilha: qualquer queixa soa como ingratidão, inclusive para você mesmo. O resultado é que a dificuldade não é dita a ninguém e vai se acumulando em silêncio. Um espaço terapêutico neutro, com alguém que não faz parte da sua rede e não vai se decepcionar com o que você sentir, existe justamente para isso.
Mudar de país resolve problemas emocionais antigos?
Raramente, e o motivo é o que a Terapia do Esquema chama de esquemas desadaptativos precoces: padrões emocionais formados na infância que acompanham a pessoa independentemente do endereço. O que a migração faz é retirar os apoios que mantinham esses padrões sob controle — a família por perto, os amigos de longa data, a rotina conhecida. Por isso é frequente que questões que pareciam resolvidas reapareçam com força alguns meses depois da mudança. Não é recaída: é o padrão aparecendo sem o amortecedor que o disfarçava.
Vocês atendem casais que moram fora?
Sim, inclusive casais em que os dois estão no mesmo país e casais separados por países diferentes. A migração costuma pressionar o casal de forma assimétrica: um dos dois normalmente teve continuidade profissional e o outro recomeçou do zero, aprendeu o idioma mais devagar ou ficou responsável pela casa e pelos filhos. Essa assimetria vira ressentimento quando não é nomeada. A terapia de casal on-line acontece com os dois na mesma chamada, ainda que de lugares diferentes.
Como faço o pagamento morando fora do Brasil?
Há duas formas. Quem mantém conta bancária no Brasil paga por PIX ou transferência, do mesmo modo que faria daqui — é o caso da maior parte dos pacientes que atendemos no exterior. Quem não mantém conta no Brasil, ou prefere pagar na moeda do país onde vive, pode usar a Wise: a transferência é feita em euro, dólar, libra ou outra moeda, com conversão pela cotação real e taxas bem menores que as de um banco tradicional. Combinamos o formato no primeiro contato. O atendimento é particular, com emissão de recibo — útil inclusive para quem tem seguro de saúde no país onde mora e pode solicitar reembolso, dependendo das regras do plano.
E se eu voltar para o Brasil no meio do processo?
O acompanhamento continua sem interrupção, e o retorno costuma ser um momento em que a terapia é especialmente útil. Voltar raramente é o simples desfazer da ida: quem volta encontra um país que mudou, amigos com outras rotinas e, com frequência, a sensação incômoda de não pertencer inteiramente a lugar nenhum. Esse choque cultural reverso pega muita gente de surpresa justamente porque ninguém o antecipa.